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DOSE DE RADIAÇÃO IONIZANTE EM TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA PEDIÁTRICA
Dayse Christina de Moraes, Ana Lucia Marcondes

Última alteração: 2015-09-22

Resumo


1 INTRODUÇÃO

A tomografia computadorizada (TC) é um método de aquisição de imagens médicas que utiliza radiação ionizante para a formação de imagens de segmentos do corpo. Sua utilização está em constante avanço tecnológico e com o passar dos anos sua aplicação no diagnóstico de diversas patologias vem crescendo, sendo atualmente uma técnica de grande utilização pela comunidade médica. A aquisição de imagens com alta resolução espacial e de contraste, sem sobreposição de estruturas anatômicas, o exame não invasivo e de rápida aquisição, permitem o diagnóstico de patologias mais rapidamente, com mais segurança e com altíssima qualidade (JORNADA; SILVA, 2014).

Apesar dos inúmeros benefícios que esta modalidade traz para aos pacientes no diagnóstico médico, os riscos das altas doses de radiação ionizante a que os pacientes são submetidos é motivo de grande preocupação (YU et al., 2009), pois a dose recebida pelo paciente em um exame de TC é maior que em qualquer outro exame de diagnóstico por imagem (JORNADA; SILVA, 2014). Mettler et al. (2000) descrevem que apenas 11% dos exames de diagnóstico por imagem provêm da TC, mas são responsáveis por 67% da exposição do paciente à radiação ionizante.

Os pacientes pediátricos também vêm usufruindo desta modalidade diagnóstica. Estima-se que de todos os exames de TC realizados mundialmente, 10% são realizados em crianças (JORNADA; SILVA, 2014). Assim, o objetivo deste trabalho foi demonstrar a importância da redução de dose em exames de TC pediátricos.

2 MATERIAL E MÉTODOS

Foi realizada uma revisão de literatura sobre a dose em TC a partir de livros na biblioteca da FATEC-Botucatu e UNESP-Botucatu, online (GOOGLE BOOKS) e publicações científicas em base de dados online (GOOGLE ACADÊMICO, SCIELO, LILACS, BIREME e PUBMED). As referências utilizadas foram publicadas no período de 1996 a 2014 e as palavras-chaves utilizadas foram: tomografia computadorizada, dose, tomografia computadorizada pediátrica.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

As doses provenientes dos exames de TC são superiores à exposição de qualquer outra técnica de diagnóstico por imagem (FINATTO et al., 2014). Dentro deste contexto, existe uma preocupação com os níveis de radiação utilizada nos exames de TC pediátricos, nos quais o nível de dose absorvida por crianças é maior que em adultos, podendo conduzir uma probabilidade maior de desenvolvimento de neoplasias relacionadas à radiação comparando com a população adulta. Uma criança de um ano de vida tem de 10 a 15 vezes mais chances de desenvolver uma neoplasia maligna relacionada à radiação do que um adulto de 50 anos, para a mesma dose de radiação (DALMAZO et al., 2010). Esse maior risco é explicado pela presença de uma maior população de células sofrendo divisões nos diversos tecidos e órgãos ainda em desenvolvimento (DALMAZO et al., 2010). Assim, a necessidade de se estabelecer protocolos específicos para exames de TC pediátricos que visem à redução das doses utilizadas se tornou fundamental (FINATTO et al., 2014). Algumas ações por parte do operador do equipamento podem auxiliar na redução da dose e o conhecimento das grandezas dosimétricas e dos parâmetros que auxiliam esta redução, são fundamentais para este entendimento (OSIBOTE, 2006).

3.1 GRANDEZAS DOSIMÉTRICAS E PARÂMETROS DE EXPOSIÇÃO

A dose de radiação em TC pode ser quantificada de diversas maneiras, entre elas, a dose emitida pelo equipamento em cada protocolo de exame, a dose total absorvida pelo paciente e a dose efetiva.

O Índice Ponderado de Dose em TC (CTDIw) é a dose estimada pelo fabricante utilizando-se um phantom, que simula a região do exame e a atenuação da radiação em um paciente dentro do gantry. Para os equipamentos multidetectores, que fazem aquisições de regiões volumétricas do paciente, o Índice Volumétrico de Dose em TC (CTDIvol) é calculado. Estes índices são medidas utilizadas para a comparação da dose emitida pelo equipamento em diferentes protocolos de exame em um mesmo equipamento (McCOLLOUGH et al., 2011).

A dose absorvida no total, ou seja, no volume todo que foi irradiado, é calculada multiplicando-se o CTDIvol de um protocolo especifico pelo comprimento da anatomia escaneada, obtendo-se o Produto Dose Comprimento (DLP). Alguns órgãos são mais sensíveis à radiação que outros e essa radiossensibilidade é representada por um fator de ponderação (K) do tecido em questão (FINATTO et al., 2014). Assim, a dose efetiva, expressa em milisieverts (mSv), é calculada multiplicando-se o DLP por um K e tem a vantagem de poder ser comparada, em termos de risco, com outras exposições à radiação (FINATTO et al., 2014), por exemplo, de outros equipamentos diagnósticos que utilizem radiação ionizante e com a radiação natural do ambiente (GOLDMAN, 2007).

O equipamento de TC fornece ao final de cada exame um relatório que contém informações sobre o CTDIvol e o DLP, possibilitando o cálculo da dose efetiva do protocolo de exame. A partir do cálculo da dose efetiva, o tecnólogo em radiologia tem um papel muito importante na otimização, ou seja, na redução da dose sem alterar a qualidade diagnóstica da imagem. Com o ajuste dos parâmetros selecionáveis pelo operador, tais como, kVp (quilovoltagem), mAs (miliamperagem por segundo), pitch, colimação, entre outros, o tecnólogo em radiologia pode reduzir a dose em que o paciente pediátrico é exposto durante o exame.

3.2 DOSE PEDIÁTRICA

Para uma mesma dose de radiação ionizante, existe uma diferença entre o risco dessa exposição à radiação em crianças se comparamos com adultos. Isso se deve ao fato que as células de tecidos e órgãos que estão em divisão, crescimento e desenvolvimento são mais sensíveis aos efeitos da radiação que as células maduras (FINATTO et al., 2014). Na radiologia pediátrica é recomendado um cuidado maior com as crianças expostas a radiação, pois elas possuem um risco duas vezes maior de desenvolver leucemia, em relação a um indivíduo adulto irradiado em exames de radiodiagnóstico (FINATTO et al., 2014). Outro fator que explica esse maior risco para crianças é que o efeito oncogênico da radiação, ou seja, da criança desenvolver um câncer, pode ter um longo período latente. Este período pode durar décadas e varia com o tipo de malignidade (BRODY, 2007). A criança tem uma maior expectativa de vida que um adulto e, portanto, uma maior chance de manifestar tardiamente os efeitos oncogênicos da radiação ionizante (BRODY, 2007). O risco de câncer induzido por radiação ionizante por pessoas expostas aos 50 anos é aproximadamente um terço do risco de pessoas expostas aos 30 anos (PIERCE, 1996).

No caso dos exames de TC, a exposição à radiação proveniente de protocolos com parâmetros técnicos fixos pode resultar em uma dose maior para crianças se comparado com um adulto (BRODY, 2007). Em pacientes com uma menor espessura, como no caso das crianças, o mAs utilizado pode ser reduzido consideravelmente sem prejudicar a qualidade diagnóstica, proporcionando uma redução significativa da dose (MARCONATO et al., 2004). A diminuição da voltagem do tubo de raios X de 120 kVp para 80 kVp pode ocasionar uma redução de 70% na dose de radiação sem prejudicar a qualidade diagnóstica, também devido a menor espessura da criança (BAE; WHITING, 2008).  Lee et al. (2012), realizando simulações em phantons com os parâmetros técnicos iguais, demonstraram que ocorre um aumento de 40 a 80% na dose em phantons com espessuras de recém-nascidos se comparados a phantons com espessura de crianças de 15 anos.

Em um estudo realizado por Dalmazo et al. (2010), exames de TC de crânio pediátrico realizados utilizando-se um kVp de 130 e mAs de 80 foram otimizados com a redução do mAs para 75 e 70 e com isso obteve-se uma redução média na dose de 7,4 e 13%, respectivamente, sem alterar a qualidade diagnóstica do exame. Lee at al. (2012) demonstraram que um aumento de kVp de 80 para 120 resultou em um aumento de aproximadamente 2,5 vezes na dose de exames de TC de crânio.

Assim, o conhecimento e o uso dos parâmetros técnicos devem ser utilizados de maneira eficiente pelo tecnólogo. Além disso, o tecnólogo deve estar familiarizado com as doses de exames de diagnóstico por imagem para que possa obter uma redução na dose efetiva aplicada ao paciente pediátrico. Brody et al. (2007) demonstraram que a dose efetiva média estimada para uma criança de 5 anos de idade em exames de TC de crânio, tórax e abdome é respectivamente 4, 3 e 5 mSv e ainda comparam estes valores com o número de exames de raios X de tórax para obtenção desta dose, sendo respectivamente 200, 150 e 250 exames.

4 CONCLUSÕES

A utilização dos exames de TC pediátricos vem crescendo significativamente devido a sua excelência no diagnóstico de diversas patologias. Porém, esses exames possuem uma alta dose efetiva de radiação e o tecnólogo em radiologia tem uma grande responsabilidade na otimização da dose utilizada. Estabelecer protocolos que visem a redução dos parâmetros técnicos, principalmente kVp e mAs, a um nível aceitável para não comprometer a qualidade diagnóstica, deve ser uma estratégia adotada por todos os tecnólogos em radiologia.

5 REFERÊNCIAS

BAE, K. T.; WHITING, B. R. Princípios básicos de tomografia computadorizada considerações físicas e técnicas. In: LEE, J. K. T. et al. Tomografia computadorizada do corpo e correlação com ressonância magnética.  4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2008. cap 1, p. 1-28.

 

BRODY, A. S. Radiation risk to children from computed tomography. American Academy of Pediatrics, Illinois, v. 120, p. 677-682, 2007. Disponível em: <http://pediatrics.aappublications.org/content/120/3/677.full.pdf+html?sid=c0864a32-30c6-4870-8317-e28ad8492816>. Acesso em: 19, Ago. 2015.

 

DAMALZO, J. Otimização da dose em exames de rotina em tomografia computadorizada: estudo de viabilidade em um hospital universitário. Radiologia Brasileira, Ribeirão Preto, v. 43, n. 4, p. 241-248, 2010. Disponível em:<http://www.scielo.br/pdf/rb/v43n4/v43n4a08.pdf> Acesso em: 27, Mar. 2015.

 

FINATTO, J. D. et al. Estudo comparativo de descritor de dose em exames pediátricos de tomografia computadorizada. International Joint Conference RADIO, Gramado, RS. p. 26-29, 2014. Disponivel em: <http://www.iaea.org/inis/collection/NCLCollectionStore/_Public/46/029/46029465.pdf> Acesso em: 27, Mar. 2015.

 

GOLDMAN, L. W. Principles of CT: Radiation dose and image quality. Journal of Nuclear Medicine Technology, Hartford, v. 35, n. 4, p. 213-227, 2007. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18006597>. Acesso em: 19, Ago. 2015.

JORNADA, T. S, SILVA, T. A. Quantificação de grandezas dosimétricas em exames de tomografia computadorizada pediátricos do abdome. Radiologia Brasileira, Belo Horizonte, v. 47, n. 5, p. 288-291, 2014. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rb/v47n5/0100-3984-rb-47-05-0288.pdf > Acesso em: 27, Mar. 2015.

 

LEE, C. Organ doses for reference pediatric and adolescent patients undergoing computed tomography estimated by Monte Carlo simulation. Medical Physics, Monte Carlo, v. 39, n. 4, p. 2129-2146, 2012. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3326072/ >. Acesso em: 19, Ago. 2015.

 

MARCONATO, J. A. et al. Redução de dose e aumento na vida útil do tubo de raios X em tomografia computadorizada. Radiologia Brasileira, Porto Alegre, v. 38, n. 5, p. 351-356, 2004. Disponível em:<http://www.scielo.br/pdf/rb/v37n5/22115.pdf >. Acesso em: 27, Mar. 2015.

 

METTLER, F. J. CT scanning: patterns of use and dose. Journal of Radiological Protection, Novo México, v. 20, n. 4, p. 353-9, 2000. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11140709>. Acesso em: 19 ago. 2015.

 

McCOLLOUGH, C. H. et al. CT dose index and patient dose: they are not the same thing. Radiology, Rochester NY, v. 259, n. 2, p. 311-316, 2011. Disponível em: <http://pubs.rsna.org/doi/pdf/10.1148/radiol.11101800>. Acesso em: 19, Ago. 2015.

 

OSIBOTE, A. O. Avaliação das doses de radiação em pacientes adultos e pediátricos em exames de radiodiagnóstico. 2006. 101f. Tese (Doutorado em saúde pública) - Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana. Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSO), Rio de Janeiro, 2006. Disponível em: < http://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/4366/2/269.pdf>. Acesso em: 19, Ago. 2015.

 

PIERCE, D. A. et al. Studies of the Mortality of Atomic Bomb Survivors. Report 12, Part I. Cancer: 1950-1990. Radiation Research Society, Hiroshima, Japão, v. 146, n. 1, p. 1-27, 1996. Disponível em: <http://www.rrjournal.org/doi/abs/10.2307/3579391> Acesso em: 19, Ago. 2015.

 

YU, L. et al. Radiation dose reduction in computed tomography: techniques and future perspective. Imaging Med.  Rockville Pike v. 1, n. 1, p. 65-84, 2009. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3271708/>. Acesso em: 19, Ago. 2015.

 


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